JOSEPH CONRAD E CAIO FERNANDO ABREU:
ALGUMAS AFINIDADES TEMÁTICAS
Antonio Eduardo de Oliveira – UFRN
A presença das temáticas do exílio e do estrangeiro é recorrente na obra do polonês Joseph Conrad (1857 – 1924). Livros como Under Western Eyes (1911) e The Secret Agent são bem representativos na abordagem destas questões. O mesmo ocorre nas narrativas do escritor brasileiro Caio Fernando Abreu (1948 – 1996). Apesar de terem escrito e vivido épocas e culturas distintas, respectivamente a européia e brasileira, é possível estabelecer um diálogo entre os seus textos, enriquecendo assim a leitura dos dois autores.
Em Conrad e Abreu a marca do exílio e a marca do estrangeiro se apresentam muitas vezes no espaço geográfico urbano onde surgem paralelas às representações homoeróticas. The Secret Sharer (1909), conto de Conrad, mesmo sendo ambientado no mar sugere, a meu ver, um curioso cotejo temático com Estranhos Estrangeiros (1996) de Abreu, por isso destacarei esses textos, o que não exclui alusões a outros momentos das obras dos dois escritores escolhidos para o argumento deste trabalho.
Tanto Conrad como Abreu tematizaram na vida e na literatura a vocação de serem estrangeiros. Ambos projetaram esse estranhamento na geografia da cidade de Londres. Para Conrad, Londres fascina e amedronta, proporcionando a visão de uma cidade enorme que se apresenta uma devoradora da luz do mundo com escuridão suficiente para enterrar cinco milhões de vidas (Conrad, 1983, p. 10)[1]. Sendo Londres, “cidade devoradora” é o espaço no qual Conrad aborda as misérias, desencantos e crueldades passionais de uma humanidade sempre tão tragicamente ávida por autodestruição. (Conrad, 1978, p. 10).
Para Caio Fernando Abreu, Londres é vista como a “Babylon City”, metáfora que equipara esta cidade a uma imensa torre de Babel, onde a concentração de linguagens e valores culturais diversificados compõe a geografia metropolitana e exila estrangeiros em espaços de solidão. A Londres de Caio é, pois, descrita como a Babylon City estertora, afogada no lixo sarcástico chamado “London ou Ajax, Brush and Rubish”[2].
Aqui Abreu num simples parágrafo ridiculariza relações colonialistas do passado e encrustradas no presente na forma de simulacros ostentados pela velha inglesa surda, para quem o narrador personagem faz faxina:
Chamo Mrs. Dixon de Mrs Nixon. É um pouco surda, não entendo bem. Preciso gritar bem junto à pérola (jamaicana) de sua orelha direita. Mrs. D(N)ixon usa um colete de peles (siberianas) muito elegante sobre uma malha negra, um colar de jade (chinês) no pescoço (...) a rede salpicada de vidrilhos (belgas) que lhe prende o cabelo. Concede-me algum interesse enquanto acaricia o gato (persa). (ABREU, 1995, p. 43).
Ambos os autores, Conrad e Abreu, são fascinados pelo mito da cidade monstruosa que seduz e oprime. O primeiro deles se insere no contexto do início da modernidade, no qual se enfatiza a ação do ruído da cidade implacável e forte, tornando o indivíduo urbano órfão, em oposição à idealização comunitária do campo. O segundo, filiado ao espírito de fragmentação da pós-modernidade, celebra o desencanto e o desalento, o exílio do homem contemporâneo diante do cenário cosmopolita. Assim nos fragmentos escritos em Londres, em 1974, chamados “Lixo e Purpurina”, e incluídos em Ovelhas Negras (1995), seleção de escritos que Caio Fernando classificou de “textos marginais, bastardos, deserdados”, o narrador em primeira pessoa e protagonista da estória se entrega a um espaço de entre-lugares onde ele circula num auto-exílio o qual ele mesmo se impõe. Define então sua vida instável de squatter na ambiência londrina:
Hoje é dia, mais uma vez, de mudar de casa e de vida. Os olhos buscam signos, o coração resiste (até quando?) e o rosto se banha de estrelas dormidas de ontem, estrelas vagabundas encontradas pelas latas de lixo ambulantes de London, London, Babylon City. (ABREU, 1995, p. 109).
Mas não é apenas a temática da cidade que possibilita a abertura de um diálogo entre Conrad e Abreu. As novelas The Secret Sharer (1909) e Pela Noite (1996) também revelam paralelos entre os dois autores. Nestas duas narrativas o enfoque da homoafetividade, vinculada ao momento do encontro, aproxima os dois autores.
A novela de Conrad enfoca as experiências de um jovem capitão que vivencia uma alienação de si mesmo quando está temporariamente separado do outro homem chamado Leggatt. O enredo mostra as inseguranças e medos de um jovem e inexperiente capitão. Uma noite, enquanto este faz guarda noturna encontra um nadador sem roupas que sobe a escada posta ao lado do navio. Depois de resgatá-lo o capitão descobre que é um fugitivo do navio “Sephora” e que havia matado alguém lá. O capitão passa a sentir imediatamente uma forte identificação com o desconhecido, a quem passa a ver como o seu duplo. Ele o esconde na cabina, pondo em risco toda a sua carreira.
Em The Secret Agent (O Agente Secreto), já citado anteriormente, agentes secretos, anarquistas e Winnie a personagem feminina central estão da mesma forma exilados em seus dramas pessoais e na geografia da cidade de Londres, que toma a imagem de um aquário limoso do qual a água tivesse sido retirada. (p. 146).
Por sua vez, em The Secret Sharer é o mar aberto que se torna uma grande cidade para o personagem central que se aliena de si mesmo numa espécie de exílio existencial. Tal atitude pode ser interpretada como parte do processo de uma crise identitária em função do confinamento no “armário” a que corresponderia a vida do capitão até ali. O que a narrativa dramatiza é a misteriosa parceria de um capitão que esconde um homem nos seus próprios aposentos, com quem troca sussurros e com quem divide a mesma cama. Isto o faz viver aterrorizado, com medo de ser descoberto pela tripulação do navio, que ele deve mas admite não saber comandar. A parceria com Leggatt, a quem o capitão chama repetidamente de seu duplo e segundo “eu”, o faz viver aterrorizado pelo risco de ser descoberto. Assim, vivendo amedrontado com a presença do desconhecido que o atrai, todo o dia havia uma manobra horrível para contornar. (Conrad, 1983, p. 117).
Nesse aspecto, a teoria da metáfora do armário de Sedgwick, como o espaço de confinamento ou de repressão da homossexualidade masculina na literatura mostra-se relevante para a compreensão desse conto. Isto porque a temática do armário é latente na obra de Conrad, como comprovou Richard Ruppel, para quem The Secret Sharer cria uma relação entre o capitão e o fugitivo toda a trajetória de um caso de amor secreto. (Ruppel, 1998, p. 24).
Numa seqüência importante da estória – e aqui tomamos simbolicamente o aposento do capitão como metáfora do “armário” – a relação amorosa que se passa entre o capitão e Leggatt é explicitada:
Outras vezes eu o encontrava no banquinho, sentado em sua roupa de dormir cinzenta e com seu cabelo escuro aparado, como um paciente, impassível prisioneiro. À noite eu o contrabandeava para a minha cama, e sussurrávamos juntos, com as passadas do oficial do quarto passando e repassando por sobre nossas cabeças. (CONRAD, 1994, p. 85).
A espacialidade da narrativa é o navio no mar. Ali o capitão projeta seu medo por estar vivenciando o afeto homoerótico, tem pavor de estar fazendo coisas erradas. Ele se sente um estranho no próprio navio e em seu primeiro comando. Resolve então se culpar. Revela sua angústia por haver transgredido a rígida disciplina da vida de marinheiro. Esta disciplina é também o “armário” a que ele pode recorrer como subterfúgio para negar o afeto que ele agora vivencia, apesar de todo o medo dos outros tripulantes do navio. Ele confessa: Senti que estava parecendo um comandante irresoluto àquelas pessoas que me observavam de forma mais ou menos crítica. (Conrad, 1994, p. 84).
No final da estória , quando o capitão enfrenta a perigosa manobra no Golfo de Sião, guiado pelo seu próprio parceiro secreto, percebemos que de inseguro tornara-se forte e audaz, graças ao compromisso afetivo com outro homem. É possível ver na decisão do capitão o enfrentamento que, no contexto dos dias de hoje, chamamos “sair do armário”. Assim o encontro e o convívio afetivo do capitão com o transgressor Leggatt libera um homem livre, um orgulhoso nadador rumando para um novo destino. (Conrad, 1994, p. 100).
Tal como o capitão e Leggatt, Pérsio e Santiago em Pela Noite também se encontram por acaso na ambiência noturna. A novela de Caio Fernando Abreu narra o encontro casual, numa sauna masculina da metrópole, de dois amigos que vêm de uma cidade do interior e que não se viam há anos. A partir daí a estória dramatiza as carências afetivas e sexuais dos dois rapazes que se sentem atraídos mutuamente tão logo se encontram. Exilados no próprio país, Pérsio e Santiago experimentam a geografia das solidões da urbe. Esta é retratada num cenário impassível que destaca:
A silhueta irregular dos edifícios, algum ponto de ônibus com pessoas encolhidas, amontoadas em baixo das marquises, batidas pela garoa fina, um outdoor com dentes resplandecentes. (Abreu, 1983, p. 56).
Mesmo mostrando de forma explícita a trajetória de dois rapazes homossexuais segundo os parâmetros de representação dos dias de hoje, Pela Noite pode ser lida como uma narrativa do “armário”. Isso porque os dois amigos reprimem seus afetos e um deles não quer aceitar o desejo homossexual de forma natural, imergindo num diálogo fantasioso com memórias cinematográficas.
Os afetos de Pérsio, Santiago e do narrador são projetados no cinema interior de cada um deles. A narrativa destaca, em alusões filmicas, sentimentos diversos. Eis alguns exemplos: num momento de ciúme, quando Pérsio se vê envolvido por sentimentos de frustração ao idealizar o seu ego, a fuga pela fantasia é escolhida como opção. O cinema de Walter Hugo Khoury é citado pontuando a opção pelo “princípio do prazer”.
Qualquer coisa que ficar falando no que a gente podia ter sido não é bom. Dá uma sensação de...
- ...fracasso
- Justamente. Em cima. De fracasso, amargura, frustração. Walter Hugo Khoury, nem pensar. (Abreu, 1983, p. 67).
De outra feita, para expressar a ternura contida e driblar a presença constante da solidão, Pérsio conversa com uma lagartixa de estimação dele chamada Kay Kendall, o mesmo nome da suave atriz britânica do passado, realizando o mesmo processo de transferência afetiva. Desta maneira Pérsio se permite mencionar sua fantasia do encontro de um parceiro idealizado:
Kay Kendall – chamou. – Kay Kendall, meu bem, onde está você?
De um dos cantos superiores do quadro surgiu uma pequena lagartixa de longa cauda nervosa. (...) Santiago imaginou a pele gelada, viscosa. (...) Dizem que dá sorte. Tem gente que chama SALAMANDRA (...) não é lindo sa-la-mandra? E eu penso na Teiniaguá, lembra da Teiniaguá? A princesa moura encantada em forma de salamandra (...). Depois penso que a Kay Kendall pode muito bem ser uma princesa encantada. Fazendo companhia a um príncipe encantado também, porque não? (Abreu, 1983, p. 71).
Experimentando ciúmes, Santiago procura a solidariedade dos olhos profundo de Lana Turner (Abreu, 1983, p. 79) na capa de uma revista no apartamento de Pérsio. Ao sentir desejo erótico por este, Santiago se refugia no folhear de uma revista de cinema rindo sozinho, divertido demais, enquanto enumerava os nomes, as fotos, Donna Reed, Yvonne de Carlo, Dorothy Malone, Rhonda Fleming, Manie Van Doren, Arlene Dahl. (Abreu, 1983, p. 78).
Como procurei mostrar, o ponto principal de união temática entre The Secret Sharer de Conrad e Pela Noite de Abreu é o fato de serem ambas narrativas de encontros noturnos entre homens, as quais remetem à problematização do afeto e do homoerotismo ligados ao processo de identidade em permanente estranhamento e ao conseqüente sentimento de exílio.
Ao término de ambas as narrativas, estes pares de duplos que se encontram descobrem que a liberação dos afetos os faz sentirem-se melhores e permite a conciliação com a vida. Em Conrad, o jovem capitão projeta-se no seu duplo que nada feliz, em mar aberto, no desfecho da estória. Em Abreu, a entrega amorosa que retira Pérsio e Santiago do “armário” faz com que estes duplos do cenário urbano percebam que provaram um do outro no colo da manhã. E viram que isso era bom. (Abreu, 1983, p. 154).
Referências Bibliográficas:
ABREU, Caio Fernando. Ovelhas Negras. Porto Alegre: Sulina, 1995.
ABREU, Caio Fernando. Estranhos Estrangeiros. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
ABREU, Caio Fernando. Triângulo das águas. São Paulo: Siciliano, 1983.
CASTELLO, José. Inventário das sombras. Rio de Janeiro: Record, 1999. P. 57-71.
CONRAD, Joseph. Twixt Land and Sea. London: Penguin, 1983.
MOORE, M. Gene. Conrad’s cities. Amsterdam – Atlanta: Rodopi, 1992.
RUPPEL, Richard. Joseph Conrad and the ghost of Oscar Wilde. In: The Conradian, vol. 23 Spring, 1998, nº. 1, p. 19-36.
SEDGWICK, Eve Kosofsky. Epistemology of the closet. London: Penguin, 1991.
WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade. Trad. Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 1990.